segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Diante de algumas situações simplesmente não há nada para se dizer. Porque não existem palavras reconfortantes. A dor que aquela pessoa está sentindo ultrapassa tudo. Só que existe a empatia, colocar-se no lugar no outro. Tentar imaginar o que se passa, como está se sentindo e como a gente se sentiria se aquilo estivesse acontecendo com a gente. E é difícil ver alguém que a gente gosta sofrer... dói na gente também. Ainda mais quando a gente está diante de uma situação em que nada se pode fazer. Que não há nada para poder ajudar a aliviar a dor. Talvez um abraço apertado... Sem clichês do tipo, "agora descansou, está em paz com deus, melhor assim do que sofrendo etc". Isso não ajuda. Eu tentei me ver naquela situação, se fosse eu que estivesse ali tendo que enterrar uma pessoa amada... uma pessoa especial, alguém importante. Como ele me disse, como é que pode hoje a pessoa está aqui e amanhã já não está mais? Infelizmente é o que se chama de vida. É tudo muito doido, muito sem por quê. De repente... O meu pai sempre foi ausente, nunca tive qualquer contato com ele, não tive laços afetivos com ele. Nada. De certa forma houve até uma rejeição da parte dele em relação a mim. Mas isso nunca foi motivo pra eu me vitimizar, pra eu me fazer de coitada, "ai, tadinha de mim, meu pai não gosta de mim, meu pai não quer me ver." Não. Pelo contrário. Pra mim ele sempre foi um estranho. Eu nunca soube nada ou quase nada da vida dele, não sei como ele era com as pessoas, se era uma pessoa boa, amável, não sei qual era o temperamento dele, não sei absolutamente nada sobre como ele era enquanto ser humano. E não cabe a mim julgar se foi certo ou errado ele não ter me assumido. O fato é que meu vô sempre desempenhou o papel de pai. Meu vô é meu pai. É ele que eu amo incondicional e incomensuravelmente. Ele que sempre fez tudo por mim. Ele e minha mãe, logicamente. Ele está no lugar de MEU PAI. Só não o chamo assim porque soaria estranho eu estar na condição de irmã da minha mãe. Mas consegui dizer tudo isso a ele. Já queria há um tempo, mas me faltava coragem. E nesse final de semana eu consegui. Me senti livre, sabe? Porque se acontecer alguma coisa com ele não me arrependerei de não ter dito o que eu sentia; ele sabe que pra mim ele é meu pai. E agora eu sei que ele tem amor de pai, e não de vô. Que ele me considera filha, não neta. Então, nesse ano, quando meu pai morreu, pra mim é como se tivesse morrido um estranho. Fiquei triste porque eu esperava que a gente pudesse se dar, bem ou mal, antes disso acontecer. Ficou algo inacabado. Eu nunca saberei por que ele não quis ter contato comigo, por que ele não quis ser meu pai. Só isso. Algo que não teve como terminar. Ficou uma lacuna, um espaço aberto... pra minha mãe foi muito mais dolorido do que pra mim. Mas se fosse o meu vô... meu mundo teria caído. Tanto quanto se fosse a minha mãe. Eu queria poder acreditar que eles e quem a gente ama são imortais. Que a gente não vai precisar entrerrá-los, vê-los ali, sem vida e que nunca mais ouviremos a voz deles, não os abraçaremos nunca mais. A vida é uma loucura. É tudo tão sem por que, tudo tão sem explicação. A gente não sabe até quando vai estar aqui, quando vai, por que, pra onde, como... Todo mundo terá que passar por isso, a menos que morra antes dos seus. É preciso ter força pra continuar de pé. E pra quem não acredita em deus, pra quem não acredita em nada, fica mais difícil ainda. Não se tem a que se apegar. A força tem que vir, sei lá, de dentro da gente, porque não existe mais onde procurar. Eu tenho medo de como vou morrer, quando... mas tenho mais medo de perder as pessoas que eu amo. Preferia morrer a ter que vê-los partir. Não sei se eu terei forças quando isso acontecer comigo. Não sei se terei estrutura pra aguentar tamanha dor. Eu sou forte, mas também... nem tanto assim. Só queria que soubesses, mais uma vez, que eu estou aqui para tudo e qualquer coisa que precises, nem que seja apenas um abraço. Solidarizo-me à tua dor. Imagino como está sendo dolorido, estranho, louco, tudo isso. Como eu já disse antes, não há o que te dizer. Sabes que com o tempo vai aliviar um pouco, mas não vai passar. Lembra-te dos momentos bons que passaste com ele, do que ele foi pra ti, esquece a dor que ele passou nos últimos dias. Lembra-te dele sorrindo pra ti, como me disseste que ias lembrá-lo. Eu não sou fria, apenas não sei como agir diante disso. Coloco-me no teu lugar. Não posso sentir a tua dor, mas saibas que também dói em mim. Porque eu sou humana, sinto amor e gosto de ti. E ver quem a gente gosta sofrer também nos faz sofrer. Desculpa se eu não consegui te dizer tudo isso, se não consegui exteriorizar meus sentimentos. Mas a partir daqui acho que saberás e entenderás. Verás que não estou alheia a tudo isso. Que me importo muito. E espero que meus abraços possam, pelo menos, te acalentar. Se quiseres conversar, eu te escutarei. Se preferires ficar silente, estarei, mesmo ainda, ao teu lado, compartilhando e respeitando o teu silêncio. Um beijo, com muito carinho...
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