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quinta-feira, 2 de julho de 2009

Eu lembro que quando eu era pequena eu reclamava que a minha mãe não ficava comigo. Que eu tinha amigas que as mães passavam o dia todo com elas. Só que a mãe trabalhava. A mãe das minhas amigas não. Aí um dia ela me disse que nas cidades grandes, muitas vezes, os filhos só vêem os pais aos finais de semana. Porque quando saem para trabalhar os filhos estão dormindo. Quando voltam, já adormeceram de novo. E que não importa a quantidade do tempo que se passa junto, mas sim a qualidade. É verdade. Porque, ainda que ela trabalhasse o dia todo, tinha tempo para mim. Contava historinhas, lia gibi, fazia uns desenhos malucos... sempre conversou muito comigo, sempre me explicou tudo. E deixou que eu vivesse. Nunca cerceou a minha liberdade, o meu espaço. Nunca me disse que isso ou aquilo era pecado. Que o papai do céu não gostava. Passou-me valores. Talvez por isso que eu nunca tenha me encaixado nessa cidade. Ela me criou de um jeito diferente ao que as minhas amigas foram criadas. Pelo menos as de infância. Me criou com outra visão. Não com a microvisão que as pessoas têm aqui. Sempre sem preconceitos. Porque aqui tem gente que não fala com fulana porque é filha de mãe solteira, ou porque os pais são separados, ou porque fulana quebra paradigmas, porque tem uma opção sexual diferente do que é considerado "normal". E minha mãe me ensinou a nunca discriminar ninguém. A tratar todo mundo igual. Sem aquela de tratar os iguais de forma igual e os desiguais desigualmente, à medida de sua desigualdade. Não. Nunca me cricou para ser mulherzinha. "Dondoquinha". Até poderia... mas não. E aí eu percebo por que não deu certo me relacionar com quem é de plástico. Porque eu sou inteira. Fui criada assim. Não para ser pedaço... pedaço de tecido, de moda. As pessoas aqui precisam crescer muito. Ainda bem que eu nasci filha da minha mãe. Sinto pena de gente assim. Se apertar, quebra. Por isso que eu não gosto dessa cidade, entre outros motivos. Mentes vazias, fechadas, estagnadas. Retrógradas. Falso moralismo. Porque, né... uma coisa são os outros. Outra coisa é o que se passa dentro de cada casa. Muito fácil levantar uma bandeira anti-homofobia ou qualquer outra, mas agir completamente diferente. Tenho preguiça, asco. Me cansa tudo isso. Ainda bem que minha mãe não é assim. Ainda bem que eu não o sou. E que os amigos que eu escolhi e que sei que são meus amigos também não são desse jeito.

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